quarta-feira, 5 de março de 2014

A partir de certa idade nem nos governa a cabeça nem as pernas sabem onde levar-nos, no fim somos como as criancinhas, inermes, mas a mãe está morta, não podemos voltar a ela, ao princípio, àquele nada que esteve antes do princípio, o nada é a verdade que existe, é o antes, não é depois de mortos que entramos no nada, do nada, sim, viemos, foi pelo não ser que começámos e mortos, quando o estivermos, seremos dispersos, sem consciência, mas existindo.

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis

segunda-feira, 3 de março de 2014

domingo, 12 de janeiro de 2014

Quem disser que a natureza é indiferente à dor e às preocupações dos homens, não sabe de homens nem de natureza. Um desgosto, passageiro que seja, uma enxaqueca, ainda que das suportáveis, transtornam imediatamente o curso dos astros, perturbam a regularidade das marés, atrasam o nascimento da lua, e, sobretudo, põem em desalinho as correntes do ar, o sobe-e-desce das nuvens, basta que falte um só tostão aos escudos ajuntados para pagamento da letra em último dia, e logo os ventos se levantam, o céu abre-se em cataratas, é a natureza toda que se está compadecendo do aflito devedor. Dirão os cépticos, aqueles que fazem profissão de duvidar de tudo, mesmo sem provas contra ou a favor, que a posição é indemonstrável, que uma andorinha, passando transviada, não fez a primavera, enganou-se na estação, e não repararam que doutra maneira não poderia ser entendido este contínuo mau tempo de há meses, ou anos, que antes não estávamos nós cá, os vendavais, os dilúvios, as cheias, já se falou o suficiente da gente desta nação para reconhecermos nas penas dela a explicação da irregularidade dos meteoros, somente recordemos aos olvidadiços a raiva daqueles alentejanos, as bexigas de Lebução e Fatela, o tifo de Valbom, e, para que nem tudo sejam doenças, as duzentas pessoas que vivem em três andares de um prédio de Miragaia, que é no Porto, sem luz para se alumiarem, dormindo a esmo, acordando aos gritos, as mulheres em bicha para despejarem as tigelas da casa, o resto componha-o a imaginação, para alguma coisa há-de ela servir-vos.

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

(...)A verdade, porém, é esta: o covil não se limita a um buraco de salvação. Quando me encontro na praça-forte, rodeado pelos montes de carniça, os olhos fitos nos dez corredores que dali partem, quando os observo, um por um, na harmonia do plano geral, e que os vejo, a cada um de per si, subindo e descendo, estendendo-se ou encurvando-se, alargando-se ou estreitando-se, todos silenciosos e vazios, e todos eles, graças ao seu desvio próprio, prontos a conduzir-me lá longe, à profusão de praças, elas também vazias e silenciosas - então a ideia de insegurança está longe de mim, então tenho a certeza de que aquela é a fortaleza que eu conquistei em luta com a terra intratável, à custa de muito escavar e morder, raspar e bater, é a minha fortaleza, nunca pertencerá a mais ninguém, e tão francamente é minha que ali posso, sereno, receber do meu inimigo a ferida mortal, que o meu sangue ali será bebido pela minha terra e não se perderá. E este é o sentido profundo das belas horas que costumo passar nos corredores, parte no repouso do sono, pate na alegria da vigília, nesses corredores calculados com toda a precisão para a minha estatura em seus voluptuosos estiraçamentos, nas suas infantis cabriolas, nos seus repousos sonhadores e nas suas abençoadas sestas. E por mais que se pareçam entre si as pequeninas praças, todas tão minhas conhecidas, reconhecê-las-ei onde, uma por uma, na curvatura das suas paredes, embalam pacífica e aconchegadamente. Nenhum ninho embala assim a sua ave implume. E tudo, tudo é silencioso e vazio.
            Visto que assim é, para que hesitar, então, para que recear o intruso mais do que receio o risco de não tornar a ver, talvez, o meu covil? Sim, esta última hipótese, felizmente é impossível. Não são precisas mais longas meditações para eu me convencer de quanto o covil significa para mim. Eu e o covil pertencemos um ao outro, de tal maneira que, não obstante todo o meu medo, poderia abandonar-me e deixar-me deslizar aqui suavemente, muito suavemente, e não teria, sequer, de me violentar para abrir, com desprezo de toda a prudência, o orifício do mesmo.
            Bastaria que eu esperasse sem fazer nada, pois a verdade é que nada nos poderá separar por muito tempo, e, desta ou daquela maneira, acabarei sempre por chegar lá ao fundo. Mas, para falar verdade, daqui a quanto tempo? E durante esse tempo quantas coisas poderão acontecer, quer aqui quer lá em baixo? E pensar eu que só depende de mim abreviar esse tempo e realizar imediatamente os actos necessários.

Franz Kafka, O Covil

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Na obscuridade da minha prisão rolante, reencontrei um a um, no fundo do meu cansaço, todos os ruídos familiares de uma cidade que eu amava e de uma certa hora em que tantas vezes me sentira contente. O pregão dos vendedores de jornais no ar já desoprimido, os últimos pássaros no largo, o grito dos vendedores de sanduiches, o lamento dos eléctricos nas pronunciadas curvas da cidade e este rumor do céu antes que a noite desça sobre o porto, tudo isto recompunha, para mim, um itinerário de cego, que eu conhecia muito antes de entrar na prisão. Sim era a hora em que, há muito, muito tempo, eu me sentia contente. O que então me aguardava, era sempre um sono ligeiro e sem sonhos. E no entanto alguma coisa se modificara, pois com a expectativa do dia seguinte, foi a minha cela que reencontrei enfim. Como se os caminhos familiares traçados nas noites de Verão pudessem conduzir, tanto às prisões, como aos sonos inocentes. 

Abert Camus, O Estrangeiro