sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Na obscuridade da minha prisão rolante, reencontrei um a um, no fundo do meu cansaço, todos os ruídos familiares de uma cidade que eu amava e de uma certa hora em que tantas vezes me sentira contente. O pregão dos vendedores de jornais no ar já desoprimido, os últimos pássaros no largo, o grito dos vendedores de sanduiches, o lamento dos eléctricos nas pronunciadas curvas da cidade e este rumor do céu antes que a noite desça sobre o porto, tudo isto recompunha, para mim, um itinerário de cego, que eu conhecia muito antes de entrar na prisão. Sim era a hora em que, há muito, muito tempo, eu me sentia contente. O que então me aguardava, era sempre um sono ligeiro e sem sonhos. E no entanto alguma coisa se modificara, pois com a expectativa do dia seguinte, foi a minha cela que reencontrei enfim. Como se os caminhos familiares traçados nas noites de Verão pudessem conduzir, tanto às prisões, como aos sonos inocentes. 

Abert Camus, O Estrangeiro

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