sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

(...)A verdade, porém, é esta: o covil não se limita a um buraco de salvação. Quando me encontro na praça-forte, rodeado pelos montes de carniça, os olhos fitos nos dez corredores que dali partem, quando os observo, um por um, na harmonia do plano geral, e que os vejo, a cada um de per si, subindo e descendo, estendendo-se ou encurvando-se, alargando-se ou estreitando-se, todos silenciosos e vazios, e todos eles, graças ao seu desvio próprio, prontos a conduzir-me lá longe, à profusão de praças, elas também vazias e silenciosas - então a ideia de insegurança está longe de mim, então tenho a certeza de que aquela é a fortaleza que eu conquistei em luta com a terra intratável, à custa de muito escavar e morder, raspar e bater, é a minha fortaleza, nunca pertencerá a mais ninguém, e tão francamente é minha que ali posso, sereno, receber do meu inimigo a ferida mortal, que o meu sangue ali será bebido pela minha terra e não se perderá. E este é o sentido profundo das belas horas que costumo passar nos corredores, parte no repouso do sono, pate na alegria da vigília, nesses corredores calculados com toda a precisão para a minha estatura em seus voluptuosos estiraçamentos, nas suas infantis cabriolas, nos seus repousos sonhadores e nas suas abençoadas sestas. E por mais que se pareçam entre si as pequeninas praças, todas tão minhas conhecidas, reconhecê-las-ei onde, uma por uma, na curvatura das suas paredes, embalam pacífica e aconchegadamente. Nenhum ninho embala assim a sua ave implume. E tudo, tudo é silencioso e vazio.
            Visto que assim é, para que hesitar, então, para que recear o intruso mais do que receio o risco de não tornar a ver, talvez, o meu covil? Sim, esta última hipótese, felizmente é impossível. Não são precisas mais longas meditações para eu me convencer de quanto o covil significa para mim. Eu e o covil pertencemos um ao outro, de tal maneira que, não obstante todo o meu medo, poderia abandonar-me e deixar-me deslizar aqui suavemente, muito suavemente, e não teria, sequer, de me violentar para abrir, com desprezo de toda a prudência, o orifício do mesmo.
            Bastaria que eu esperasse sem fazer nada, pois a verdade é que nada nos poderá separar por muito tempo, e, desta ou daquela maneira, acabarei sempre por chegar lá ao fundo. Mas, para falar verdade, daqui a quanto tempo? E durante esse tempo quantas coisas poderão acontecer, quer aqui quer lá em baixo? E pensar eu que só depende de mim abreviar esse tempo e realizar imediatamente os actos necessários.

Franz Kafka, O Covil

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