domingo, 12 de janeiro de 2014

Quem disser que a natureza é indiferente à dor e às preocupações dos homens, não sabe de homens nem de natureza. Um desgosto, passageiro que seja, uma enxaqueca, ainda que das suportáveis, transtornam imediatamente o curso dos astros, perturbam a regularidade das marés, atrasam o nascimento da lua, e, sobretudo, põem em desalinho as correntes do ar, o sobe-e-desce das nuvens, basta que falte um só tostão aos escudos ajuntados para pagamento da letra em último dia, e logo os ventos se levantam, o céu abre-se em cataratas, é a natureza toda que se está compadecendo do aflito devedor. Dirão os cépticos, aqueles que fazem profissão de duvidar de tudo, mesmo sem provas contra ou a favor, que a posição é indemonstrável, que uma andorinha, passando transviada, não fez a primavera, enganou-se na estação, e não repararam que doutra maneira não poderia ser entendido este contínuo mau tempo de há meses, ou anos, que antes não estávamos nós cá, os vendavais, os dilúvios, as cheias, já se falou o suficiente da gente desta nação para reconhecermos nas penas dela a explicação da irregularidade dos meteoros, somente recordemos aos olvidadiços a raiva daqueles alentejanos, as bexigas de Lebução e Fatela, o tifo de Valbom, e, para que nem tudo sejam doenças, as duzentas pessoas que vivem em três andares de um prédio de Miragaia, que é no Porto, sem luz para se alumiarem, dormindo a esmo, acordando aos gritos, as mulheres em bicha para despejarem as tigelas da casa, o resto componha-o a imaginação, para alguma coisa há-de ela servir-vos.

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis

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