(...)A verdade,
porém, é esta: o covil não se limita a um buraco de salvação. Quando me
encontro na praça-forte, rodeado pelos montes de carniça, os olhos fitos nos
dez corredores que dali partem, quando os observo, um por um, na harmonia do
plano geral, e que os vejo, a cada um de per si, subindo e descendo,
estendendo-se ou encurvando-se, alargando-se ou estreitando-se, todos
silenciosos e vazios, e todos eles, graças ao seu desvio próprio, prontos a
conduzir-me lá longe, à profusão de praças, elas também vazias e silenciosas -
então a ideia de insegurança está longe de mim, então tenho a certeza de que
aquela é a fortaleza que eu conquistei em luta com a terra intratável, à custa
de muito escavar e morder, raspar e bater, é a minha fortaleza, nunca pertencerá
a mais ninguém, e tão francamente é minha que ali posso, sereno, receber do meu
inimigo a ferida mortal, que o meu sangue ali será bebido pela minha terra e
não se perderá. E este é o sentido profundo das belas horas que costumo passar
nos corredores, parte no repouso do sono, pate na alegria da vigília, nesses
corredores calculados com toda a precisão para a minha estatura em seus
voluptuosos estiraçamentos, nas suas infantis cabriolas, nos seus repousos
sonhadores e nas suas abençoadas sestas. E por mais que se pareçam entre si as
pequeninas praças, todas tão minhas conhecidas, reconhecê-las-ei onde, uma por
uma, na curvatura das suas paredes, embalam pacífica e aconchegadamente. Nenhum
ninho embala assim a sua ave implume. E tudo, tudo é silencioso e vazio.
Visto que assim é, para que hesitar,
então, para que recear o intruso mais do que receio o risco de não tornar a
ver, talvez, o meu covil? Sim, esta última hipótese, felizmente é impossível.
Não são precisas mais longas meditações para eu me convencer de quanto o covil
significa para mim. Eu e o covil pertencemos um ao outro, de tal maneira que,
não obstante todo o meu medo, poderia abandonar-me e deixar-me deslizar aqui
suavemente, muito suavemente, e não teria, sequer, de me violentar para abrir,
com desprezo de toda a prudência, o orifício do mesmo.
Bastaria que eu esperasse sem fazer
nada, pois a verdade é que nada nos poderá separar por muito tempo, e, desta ou
daquela maneira, acabarei sempre por chegar lá ao fundo. Mas, para falar
verdade, daqui a quanto tempo? E durante esse tempo quantas coisas poderão
acontecer, quer aqui quer lá em baixo? E pensar eu que só depende de mim
abreviar esse tempo e realizar imediatamente os actos necessários.
Franz Kafka, O Covil