sexta-feira, 30 de setembro de 2016

atrium

     luta de sonâmbulos animais sobre a chuva. insectos quentes escavam geometrias de baba pelas paredes do quarto. em agonia, incham, explodem contra a límpida lâmina da noite. são os resíduos ensanguentados do ritual.
na cal viva da memória dorme o corpo. vem lamber-lhe as pálpebras um cão ferido, acorda-o para a inútil deambulação da escrita.
abandonado vou pelo caminho de sinuosas cidades. sozinho, procuro o fio de néon que me indica a saída.
eis a deriva pela insónia de quem se mantém vivo num túnel da noite. os corpos de Aberto e Al Berto vergados à coincidência suicidária das cidades.
eis a travessia deste coração de múltiplos nomes: vento, fogo, areia, metamorfose, água, fúria, lucidez, cinzas.
ardem cidades, ardem palavras. inocentes chamas que nomeiam amigos, lugares, objectos, arqueologias. arde a paixão no esquecimento de voltar a dialogar com o mundo. arde a língua daquele que perdeu o medo.
germinam fluidos mágicos por dentro da matéria contaminada do corpo, os órgãos profundos gemem assustados pelo excesso. nunca mais voltámos a encontrar um paraíso. a pausa para reparar não existe, os tempos dos grandes desertos absorveu a seiva dos adolescentes dias.
a insónia, essa ferida cor de ferrugem, festeja noctívagas alucinações sobre a pele. no acido écran das pálpebras acendem-se quartos alugados onde pernoitámos. são enfim brancos esses pedaços de memória onde dávamos abrigo e sossego aos corpos.
para sobreviver à noite decidimos perder a memória. cobríamo-nos com musgo seco e amanhecíamos num casulo de frio, perdidos no tempo. mas, antes que a memória fosse apenas uma ligeira sensação de dor, registámos inquietantes vozes, caminhámos invisíveis na repetição enigmática das mascaras, dos rostos, dos gestos desfazendo-se em cinza. escutámos o que é inaudível em nossos corpos.
era quase manhã no fim deste cansaço. despertava em nós o vago e trémulo desejo de escrever.
passaram doze anos e esquecer-te seria esquecer-me. repara no estremecimento do sangue, a morte rendilhando peste nos ossos, os dedos paralisados, a fala, os espelhos.
no escuro beco do mundo segrego abelhas de esperma, a luz do mar onde teço corpos de água, a escrita que vem da treva, lembro-me: um corpo voltou a mover-se no interior do meu.

hoje abri novamente a janela onde sempre me debruço e escrevi: aqui está a imobilidade aquática do meu país, o oceano abismo com cheiro a cidades por sonhar. invade-me a vontade de permanecer aqui, para sempre, à janela, ou partir com as marés e jamais voltar…
releio o que escrevi há doze anos, neste mesmo lugar: as canetas secaram, os lápis ficaram esquecidos não sei onde. as borrachas ja não apagam a melancolia das palavras. a escrita que inventámos evadiu-se do corpo. o vazio devora-os. onde estivemos este tempo todo? voltaremos a encontrar e a tocar nossos corpos?

não estás aqui mas vejo-te nítido quando uma pétala de bruma envolve a casa e adormece o desejo. um astro ininteligível e de órbita difícil guia-me, ilumina-te. pelas frestas dum espaço oco perscruto o eco de meu corpo, o silente medo de continuar vivo.

sinto-me no cimo do meu próprio lixo e sorrio. espero que cheguem outros dias com algum sonho, ou destino, mais feliz.


Al Berto, O Medo

terça-feira, 20 de setembro de 2016

apercebo o lume dum coração antigo e simples
atravesso a cor luminosa dos sonhos sem me deter
aqui deixo o espólio daquele cuja vida 
é cintilação de lugares nítidos

(um pouco de café, uma carta, um pedaço de vidro)

tenho a certeza de que se virasse o corpo do avesso
ficaria tudo por recomeçar
mas se aqui voltares
talvez encontres estes papéis escritos
no recanto mais esquecido da noite... talvez
descubras o vazio onde o corpo desgasto esperou

vou destruir todas as imagens onde me reconheço
e passar o resto da vida assobiando ao medo

Al Berto, Postscriptum

sábado, 3 de setembro de 2016

We are all facing our lives with agonising decisions, moral choices. Some of these choices are on a grand scale, most of these choices are on lesser points but we define ourselves by the choices we have made. We are in fact the sum total of these choices. Events unfold so unpredictably, so unfairly human, happiness does not seem to have been included in the design of creation. It is only we with our capacity to love that give meaning to the indifferent universe and yet most human beings seem to have the ability to keep trying and even to find joy from simple things like their family, their work and from the hope that future generations might understand more.

Professor Levy, Woody Allen, Crimes and Misdemeanors