terça-feira, 13 de maio de 2014

Foi nesse mesmo momento que o leão soltou um rugido profundo, subitamente gutural, de vibração crescente e que parecia abalar a atmosfera, acabando por morrer num suspiro pesado e como que arrancado ao mais fundo do peito.
(...)
Macomber saiu pela abertura curva que se cavava junto do assento da frente, pôs o pé no estribo e saltou para o chão. O leão continuava a fitar majestosa e friamente o objecto que os seus olhos apenas viam em recorte volumoso, como se fosse um grande rinoceronte. O vento contrário  não podia trazer-lhe o cheiro do homem, pelo que se limitava a observar o objecto com ligeiros movimentos de cabeça de um lado para o outro. Enquanto hesitava em se havia de ir ou não beber com aquela coisa na frente, viu um vulto humano salientar-se do conjunto. Então voltou a pesada cabeça e virou-se na direcção do abrigo das árvores. Ouviu nessa altura um estampido e sentiu o choque de uma sólida bala de 220 chumbos de 30-06 que lhe mordeu o flanco e lhe perfurou o estômago, causando-lhe uma sensação de súbita náusea escaldante. Trotou então, pesadamente, balouçando o corpo ferido por entre as árvores, direito a umas ervas altas, em busca de abrigo, e logo o mesmo estampido o seguiu despedaçando no ar. Novo o estrondo o foi atingir nas últimas costelas, rasgando-as. O sangue, um sangue quente e espumoso, jorrou-lhe da boca. A fera galopou então para umas ervas altas onde poderia agachar-se e esconder-se de modo a solicitar a aproximação do objecto que provocara os estampidos e assim lhe ser possível investir e apanhar o homem que vinha com aquilo.

Ernest Hemingway, A Curta e Feliz Existência de Francis Macomber